lolo barnabé

Hoje  não tem costura por aqui. Tem muita encanação de mãe. Fuja enquanto há tempo. Pule o post, pule o blog. Mas, caso resolva ficar mais um pouco, pensa comigo sobre uma coisa… busca lá um café antes… é longa esta história.

Encanação 1 (sim, tem mais):

…dar presentes é uma prática culturalmente instituída, certo? Já se perguntou o propósito? Damos para atender a uma expectativa social, isto é, para acalmar nossa necessidade de cumprir com o que é socialmente esperado de nós em determinadas ocasiões ou de fato nos debruçamos sobre o outro, o presenteado, e em nossa relação com ele, e na ocasião que aparentemente pede um presente, e no contexto em que o presente parece uma boa ideia e decidimos pelo presente a partir de um sentido nascido dessa reflexão? E se a decisão for não presentear… quão incômoda é essa ideia?

Encanação 2 (sim, completamente relacionada com a 1 e juro que já explico tudo):

…”criamos nossos filhos para o mundo”, certo? Para qual deles? O mundo que desejamos para eles, o mundo que desejamos que eles construam para eles ou “o mundo” que, se não cuidarmos, adentra nossas casas sem pedir licença, direta ou indiretamente a partir da crença “todo-mundo-faz/tem-então-temos-que-fazer/ter-também-senão-tadinho…”? E com que idade começamos a criá-los para o mundo? Quer dizer, com que idade eles deixam de ser “só criança, vai”?

Se você e seu café ainda estão por aqui, explico o contexto em que as encanações principiaram.

No fim do ano, um dia após o natal, vamos para Orlando. Viagem familiar com avós, tios, tias e primos. Delícia! B, no quesito compras, realizará 2 desejos: visitar a Legoland e trazer para casa uma sacola de legos e ganhar um vídeo game de ligar na TV. Tudo comprado lá, de uma só vez.

Decidi que neste ano não teremos presentes de natal, B e eu. Decidi que a viagem é um presente pra gente.  Não haverá outros presentes este ano, de ninguém. O pessoal da família que passa o natal conosco, que quiser participar desse momento do B, irá contribuir com “moedas” para ele levar na viagem e comprar o que tanto quer (ele tem feito um cofrinho, anda economizando). Os amigos queridos, que adoram presentear, estão aos poucos sendo informados que não precisamos de presentes neste ano.

Fiquei pensando, como seria para uma criança de 6 anos, que passa o natal cercada por pessoas muito generosas, abrir a tonelada de presentes que o B geralmente abre nessa data e, na noite seguinte, embarcar para essa viagem. Fico pensando na leitura que ele pode fazer dessa experiência toda. Leitura de mundo.  Qual seria o propósito dessa overdose de “recebimentos”? Se tudo o que ele deseja hoje, além da viagem, são os blocos de montar e o vídeo game, que lugar, que valor pode ter as outras tantas coisas recebidas? Mais do que isso, fico pensando que um sonho, um desejo, não pode se realizar na abundancia. Se tenho muito, o tempo todo, não há espaço para desejar nada. Se não sentir falta, não tenho como reconhecer em mim a vontade de algo novo. Falo de vontade de fato. De um querer que permanece com a gente e que pode, inclusive, ser de algo que não se pega nas mãos…que não se recebe de outrem, mas se conquista.

O título deste post é o título de um livro da Eva Furnari. Minha autora favorita de todos os tempos. A história começa no tempo das cavernas e termina nos dias de hoje. Lolo Barnabé e sua família “eram felizes, mas nem tanto”. Achavam que se tivessem mais coisas, seriam mais. Começam a inventar diferentes objetos e outras “novidades”, que aos poucos vão modificando o modo de vida deles: iniciam com roupas e utensílios domésticos e terminam com luz elétrica, TV e até faxineira. É num dia sem energia em que fazem uma fogueira no quintal e param para papear e pensar na vida (como faziam no tempo das cavernas) que descobrem que “já possuem coisas demais e talvez não precisem de mais nada”.

Ando um pouco Lolo Barnabé ultimamente. Na verdade, Brisa, que é a esposa e é quem mostra a ele que não precisam inventar nada mais.

Acho que depois da “invenção” de tantos “presentes” que as crianças ganham ininterruptamente ao longo de todo o ano, hoje, preparamos nossos filhos para o mundo quando ensinamos que menos é mais. Quando os colocamos em contato com uma vida mais simples em termos de acúmulo de coisas e mais recheada do que de fato importa e quando os ensinamos a identificar o que de fato desejam.

Querem exemplos do que estou chamando de “presentes que ganham ininterruptamente ao longo de todo o ano”? Reforça o café e olha só:  lembrancinhas de aniversários, brindes em lanches, brindes no posto de gasolina, padaria, banca de jornal e no supermercado (diria que o supermercado é o planeta dos brindes que acompanham de shampoo a cereal matinal), próprio aniversário, natal, dia das crianças (e se você for bem azarada, seu filho está numa escola que presenteia no dia das crianças também!!!), páscoa… fora os eventuais, como a lembrancinha que alguém traz de uma viagem ao exterior ou quando vovó e vovô não conseguem dizer não…

Deu um pouco de falta de ar? Em mim, sim.

Desejo fortemente que meu filho aprenda a desejar!  Que aprenda a valorizar seus sonhos e a fazer os esforços e sacrifícios necessários para a realização deles. Que viva a grande satisfação de realizá-los. Para isso terá que aguardar, planejar, ficar ansioso, quase desistir e antecipar o grande momento… até que ele chegue.  Não desejo poupá-lo dessa experiência. Por isso, o natal será diferente este ano. Não cabe o natal convencional neste ano.

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17 comentários sobre “lolo barnabé

  1. Cara Brisa,

    Seu post, muito bem redigido e cheio de valores que eu admiro, vai ser assunto em uma palestra hoje. Veja, não estou pedindo licença para usá-lo, estou apenas comunicando, pois ganhei um presente significativo a cerca de 25 anos, com todos esses valores que você tanto luta para preservar: sua amizade. E me orgulho ao ver seu esforço, dentro deste mundo cheio de interferências, para mostrar a poesia de viver aos olhos (lindos) do B. Eu apoio seu movimento e seu sentimento e já separei aqui umas moedas para o cofre dele (uma espécie de pagamento de direitos autorais, por usar seu post em uma palestra…pensa nos ensinamentos…”O meu reino não é deste mundo”…kkk)

    bj :Dé

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  2. Parabéns, você descreve muito bem as dúvidas e sensações que me acompanham. Tenho filhos de 16 e 10 anos e eles parecem viver numa ansiedade de consumir a cada dia mais e mais. A tecnologia chega as nossas vidas de maneira espantosa e não sabemos como lidar com isso. Acredito que B. e você terão um natal lindo e uma viajem maravilhosa!!

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  3. Olá Patricia,
    Gostei muitíssimo da sua reflexão e acredito nessas ideias. Mas às vezes é realmente difícil convencer as pessoas disso.
    Nesse mundo descartável que vivemos (com lojas de R$ 1,99 da China) é quase obrigatório dar presentes nem que seja realmente para cumprir com o social.
    Eu gosto muito de presentear as pessoas que amo, mas acredito que isso só vale a pena quando realmente pensamos nessas pessoas e escolhemos um presente (que pode ser uma lembrancinha) com o coração. Acho muito mais interessante presentear fora das datas comemorativas, mas o capitalismo nos pressiona o tempo todo com as milhões de propagandas e o incentivo ao consumismo.
    Muito importante a sua reflexão.
    Bjsss

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    • É, Adriana, penso nisso também. Sobre o quanto do que temos ou achamos que precisamos é descartável. E em como é automática a aquisição. Quem tem criança em casa, então, nem se fale. O difícil mesmo é que, por ser automático, não pensamos a respeito. E perdemos de vista a frequencia com que as crianças, no dia a dia, recebem e consomem coisas. Isso somado às datas comemorativas todas do “calendário do shopping” resulta em uma overdose absolutamente descabida e desnecessária. No caso do Natal o “buraco é mais embaixo”. Pedir que avós “pulem” o Natal dos netos (como é o meu caso neste ano) parece um “pecado mortal”. Os avós viveram um época diferente em relação a essa abundância toda. O presente de Natal tinha um valor e um lugar na vida de quem tinha a prática de presentear nessa data muito diferente da que conseguimos produzir hoje em dia. Aguardar ansiosamente por algo que vc vai receber somente nesta data é algo que nossos filhos não vivem – a menos que nos esforcemos para garantir. Difícil sair do automático e do que já está mapeado em nossas vidas, né? Obrigada pelo comentário!

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  4. Patrícia, muito querida!
    Presente para mim foi esse texto lindo e significativo!
    Vou dividir e espalhar seu texto por aí, ok?
    Also, adoro Eva Furnari!!!!!

    Sua Amiga Bonequeira!

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  5. Retornei hoje de Orlando e te digo que tudo se resume a comprar e comprar. Talvez passar valores aos filhos não seja o ideal em uma viagem dessas, os meus de 13 e 10 anos simplesmente surtaram. Eu gostei de lá mas tudo te dirige a comprar e curtir, nada além disso. Fica difícil para uma criança pequena entender tudo isso, distinguir datas específicas de brinquedos específicos troca de uma coisa por outra.
    Mas o melhor é que na maioria das vezes é que eles se contentam com coisas tão simples que nem somos capazes de imaginar….Ah e o que é aquela Jo-Ann? rs. De toda maneira uma ótima viagem para você!

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    • Oi, Celma. Obrigada pelo comentário…Acho que a maternidade é isso, né? Traçar um plano, que parece fazer sentido, se manter nele, e ver no que dá. Às vezes, pode até parecer não fazer sentido, principalmente quando antes de racionalizar e tentar entender o que te leva a tomar determinadas decisões tudo o que você tem é “um feeling” de que deve ir por este caminho e não por aquele outro que está bem alí. Quero muito acreditar que aprender sobre o valor das coisas não tem hora certa, nem época do ano. Se aprende nos momentos que nos permitem questinar, que nos fazem parar para pensar. Estamos vivendo um desses momentos agora. Vamos ver no que dá! E, sobre a Jo-Ann, acho que vou lá também! 🙂

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  6. Oi Fiquei pensando no seu texto…eu morei lá. A jo Ann não era na porta de casa mas quase, pior era a Toys R us…mas e aonde entra a livraria?CVS?
    Tenho ganho vários presentes de pessoal que viaja, marcadores de livros, fotos…até aonde está indo nosso problema com dar e receber? o que é muito? o que é pouco? Não sou minimalista. não quero ser, e não vou só porque hoje em dia o bacana é ter poucas coisas…minha mãe dá presentes pros meus filhos que é um horror…no sentido de que eles nem percebem que é presente. Muito triste isso. Para todos eles. Mas ela dá todo ano um papai noel daqueles que se mexem. E isso eles querem. Vai da gente ensinar que o que vale não é o valor do presente. Mas se vc quer dar um bombom que fez não pode? Já ganhei de Natal fotos de familia e foi ótimo…Acho que vale a pena ganhar em moeda sim, pois lá ele pode escolher o que ele quer. Mas tudo é uma questão de achar um meio termo. Da última vez entrei na Toy R us, andei a loja toda com brinquedos na mão e deixei tudo. Para mim estava bom sonhar com eles. O que quero dizer é que tudo que é demais é perdido. Mesmo o não poder ter presente…pois um abraço tb é um presente…beijo Boa viagem, divirta-se muito. E tem muito lugar bacana para passear sim, nem tudo são compras…O Davi voltou com grana…

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    • Oi, Denise. Educar é difícil, né? Definir o que é suficiente e o que é demais também não é fácil. Acho que o que vale sempre é o bom senso. Aqui em casa, por exemplo, fazemos todo ano o calendário do advento. São atividades ou pequenos “presentinhos” diariamente em dezembro, como uma forma de viver a época do natal, focando no que faz sentido pra gente: fazer o que gostamos, com quem gostamos, que eu acho que é o que importa e nem é pq está na moda (rs). Este ano não será diferente e B já está ansioso aguardando o início. B também acredita em papai noel e já fez seu pedido e vai ganhar o que pediu, na mannhã do dia 25, como todo ano. Concordo com vc quando diz que tudo o que é demais é perdido. E é exatamente isso que me faz pensar que a noite do natal, que é o momento em que ele geralmente recebe uma “enxurrada” de presentes, neste ano, será diferente em vista da viagem. Chegando lá, providenciaremos os presentes que ele tanto aguarda e lidaremos com todos os outros apelos consumistas a medida que forem aparecendo, tentando, ainda, chamar atenção para tantas outras coisas bacanas que vivenciaremos por lá. A imagem dele abrindo tantos presentes em um dia e no seguinte embarcando para uma viagem como esta é que me incomoda sobremaneira. Até porque, ele nem teria o que é uma delícia nos dias que vem depois do natal que é acordar e ir brincar com o que ganhou. Eu também entrei na dança. Também não ganharei presentes de natal e acho que nem do papai noel (rs)… até porque, quem nos dá presentes no natal estará viajando conosco e passaremos 10 dias fazendo mil coisas juntos, inclusive compras. Não faz nenhum sentido, na minha cabeça, o gasto com presentes uns para os outros este ano. Sei lá. Enfim… Prometo contar como foi! Eu, devo visitar a Jo Ann… vou entender que é o que o papai noel me daria…rs. Bj e boa semana!!

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